Talvez por ter sido projetada como uma trama para o horário das seis, Velho Chico chega a faixa das nove rompendo com o padrão do horário, o que me fez duvidar da receptividade da história, especialmente pois suas referências mais similares estavam baseadas em Pantanal e O Rei do Gado. Embora esta última tenha sido um sucesso absoluto em sua reprise vespertina, ela representa um modelo de novela do qual o brasileiro está desacostumado. As atuais tramas das nove são esperadas com um certo sensacionalismo e não é a toa que os autores se esforçam tanto em definir seus personagens de forma tão ríspida já em seu primeiro dia. Por exemplo, vale lembrar de como Romero e Beatriz foram introduzidos em A Regra do Jogo e Babilônia,  respectivamente.

Ainda é cedo para avaliar a relevância de Velho Chico na teledramaturgia brasileira, mas a julgar pelas suas primeiras semanas, uma coisa pode-se afirmar: desde de Avenida Brasil não tínhamos uma obra tão bem introduzida. Tenho certeza que a maioria dos autores preferiria condensar todo o enredo dessas duas primeiras fases em apenas um capítulo, uma semana no máximo, mas esse não é o caso de Benedito Ruy Barbosa  (Sinhá Moça, Paraíso) que prefere ressaltar os diálogos, a poesia e crueza da realidade em cada acontecimento e ir contando a história didaticamente mas sem deixar o telespectador cair no sono. O ritmo frenético de A Regra do Jogo dá espaço a uma história forte de rivalidade e paixão que nascem as margem do rio São Francisco. 

Para contextualizar essa introdução, o sertão é ressaltado pelas cores e flores que compõe cada cenário. Desde a casa do coronel até os campos de algodão passando pelas roupas simples, cada cena é projetada de uma forma rústica mas ao mesmo tempo muito delicada. É como se as fórmulas de Meu Pedacinho do Chão  e Hoje é Dia de Maria tivessem se fundido, ressaltadas e adaptadas ao linguajar do horário em contexto atemporal. Destaque para Luiz Fernando Carvalho que também dirigiu essas obras e retorna com maestria ao horário nobre em parceria com o autor.  A influência da tropicália na capital ou as roupas dos empregados lembrando a escravidão sugerem, mas não dão indicação de em que época a história se inicia, embora saibamos estar por volta dos anos 70.

Combinados a esplendorosa direção de arte, Velho Chico ainda conta com uma trama forte, extremamente empática e que abraça o telespectador. Personagens que poderiam ser considerados protagonistas sucumbem em cada capítulo. Ernesto Rosa começa a trama com o  típico perfil do protagonista justiceiro, alavancado pelo carisma de Rodrigo Lombardi,  é assassinado em menos de duas semanas de trama, frustando o público com o sentimento de injustiça pelo acontecimento. O mesmo acontece com Leonor (Marina Nery), falecida durante o parto do seu segundo filho, cuja presença envolve desde a primeira cena, fazendo torcer muito mais pelo seu casamento com Afrânio (Rodrigo Santoro) do que o envolvimento desde com Iolanda. Dado o contexto em que a trama se desenvolve, perder esses personagens fazia todo sentido, abrindo caminho para as direções da próxima fase.  Destaque para a passagem brilhante apesar de meteórica de Tarcício Meira que diva rouba toda a cena no primeiro capítulo.  

Afrânio em si é um personagem intrigante e controverso. O jovem filho do coronel é apresentado como um aventureiro despreocupado e que se vê forçado a abandonar seu grande amor em prol de assumir as responsabilidades pelos negócios da família. Diferentemente da ambiguidade de A regra do Jogo, o protagonista de Velho Chico começa como um jovem de caráter e  é lentamente corrompido. Acompanhamos um processo de construção do vilão, entendendo suas motivações e decisões que o levaram ao ponto de ruptura com sua antiga personalidade. Em pouco tempo de posse das terras de seu pai, ele assume uma presença firme e sombria, expandindo sua zona de influência sobre as vidas daqueles ao seu redor. Um personagem que não nasce mau, mas que tão pouco é bom, mas sim movido por ações contraditórias e que dividem o público. De certa forma uma atitude arriscada de Ruy Barbosa ao fazer o telespectador balançar na empatia com seu próprio protagonista. 

Versão sombria do Zelão (Meu Pedacinho do Chão), Clemente é um dos melhores personagens. Cegamente devotado aos de Sá Ribeiro, o capataz que tem a morte dos olhos e complexo e envolvente em cada passagem, principalmente devido a interpretação de Júlio Machado. É realmente uma pena que ele não estará na terceira fase da novela. 




O romance de Tereza e Santo é o típico clichê de Romeu e Julieta, mas é desenvolvido com uma forma que é difícil ficar indiferente e não torcer pelo casal, especialmente por que o esperado é que eles só tenham a oportunidade de ficar juntos na terceira fase da novela. 

Outro ponto forte de Velho Chico está em seu reduzido número de personagens. Estamos acostumados a tramas com um elenco gigantesco e aqueles famosos núcleos de alívio cômico que não agregam a história e não divertem, mas que marcam presença diária com tramas sem significado apenas para encher a cota de capítulos. Esses personagens prejudicam a história na maioria das vezes quando não interagem com a trama principal, a ponto de desaparecem completamente em semanas que os protagonistas encontram momentos decisivos. Trabalhar com um número reduzido de personagens evoca no público uma sensação de que todos significam, fazendo  com que nos importemos com cada elemento ao invés de ignora-los. 

Como nem tudo são flores, a novela está destinada ao mesmo arco decisivo de Além do Tempo que possuía duas fases distintas. É inevitável que o público se apegue a determinados personagens na essência em que lhes foram apresentados, razão pela qual muitos autores preferem uma introdução rápida. Ainda não sei como será na segunda fase, mas não teria problemas em acompanhar a história da forma como ela é apresentada agora, com cenário lindos (por favor não percam essa arte), atuações formidáveis e um enredo impactante. 

P.s1: eu sei que faz parte da arte, mas não precisa ter todo mundo suado o tempo todo!!

Ps2: Essa trilha sonora <3!! Manda mais!!

Ps3: Dona Encarnação, sua linda!!

Ps4: ao fazer uma análise de uma obra é impossível não comparar com suas predecessoras, razão pela qual A Regra do Jogo é tão citada. 


[Crítica] Desde Avenida Brasil, não tínhamos uma novela tão bem introduzida como Velho Chico






Produtos da era da informação, os smartphones e a popularização da internet transformaram os hábitos e comportamentos dos elementos da nossa sociedade. De forma as vezes exagerada, reproduzimos essas atitudes sem nem ao mesmo perceber, alienados por uma padrão criticável.  Aproveitando esse cenário, This New World faz uma crítica severa a essas tecnologias retratando o que considera uma realidade concorrente ao  plano físico, e que nos dá a falsa impressão de que podemos viver nos dois mundos simultaneamente.

Com elementos similares a Mr. Robot e Black Mirror, a websérie de seis episódios gira em torno de Dave, alguém viciado neste universo. Naquilo que lembra uma sessão de análise, o protagonista tenta se livrar do vício nesta outra realidade ao mesmo tempo que mergulha nela. Tudo ambientado em uma atmosfera sombria e sinistra, na qual a presença no novo mundo é representada pelo uso de máscaras de couro que lembram cabeças de coelhos assustadoras.

Todos os episódios podem ser assistidos no canal do The Last Captains, uma produtora independente e responsável pela criação do conteúdo e pela ótima trilha sonora. A produção também conta com o apoio do Stremio, programa de reprodução de séries e filmes. Pra os interessados, fica o player do primeiro episódio.



[Websérie] This New World é uma crítica a sociedade dos smartphones



Produção nacional, Meninos Tristes é uma websérie produzida em parceria da Hellas Filmes e a Escola de Atores TV & Cinema. Baseada em um curta homônimo, os episódios servem como etapa final na formação de jovens atores, além de propiciar um debate sobre bullying nas escolas. A página da série no facebook inclusive faz um trabalho belíssimo divulgando casos de agressão sofrida por jovens LGBT.

A trama foca na perspectiva de André, um jovem prestes a concluir o ensino médio e que se vê perseguido por garotos da sua escola,  além de ter de lidar com as descobertas de suas própria sexualidade e a pressão familiar. Em meio a esses acontecimentos, ele ainda terá que lidar com a aproximação de Diego, alguém que tende a balançar seus sentimentos. Tudo se complica quando, em um momento de desespero, André toma uma atitude dramática. 

Inspirada em fatos reais, a websérie se destaca não apenas pelo roteiro, mas pelo ótimo trabalho técnico. Lançada há um mês, já conta com dois episódios que podem ser assistidos nos players abaixo. 






[Websérie] Meninos Tristes faz um retrato do bullying escolar


Sem spoilers!!!

Série da BBC com cinco episódios, London Spy combina toda a carga dramática das séries inglesas com o mistério e reviravoltas das tramas de espionagem. A narrativa gira em torno de Daniel (Danny), um jovem romântico e sonhador que encontra no misterioso Alex um amor puro e nos moldes mais clássicos. Após oito meses, sua rotina se vê completamente alterada devido a um crime, e Danny é colocado no centro de uma trama de mentiras e conspirações. 

Em uma atmosfera tensa e pautada muito mais no silêncios e expressões do que nas palavras em si, London Spy, embora vendida como uma trama de espionagem, se entrega muito mais ao drama do que a agilidade e aparatos tecnológicos dos filmes de 007, por exemplo. Seu protagonista é extremamente cativante, inocente e puro, contrastando com todo o seu entorno. E talvez tenha sido essa a intenção, deixar alguém tão vulnerável cercado por um ambiente altamente hostil e avassalador, deixando-nos complemente comovidos pela sequência desenfreada de ações que o levam a um abismo emocional. 

Embora a série seja contada praticamente em primeira em pessoa, personagens igualmente interessantes orbitam ao redor de Daniel. A começar por Alex, de quem temos poucas informações, mas cuja personalidade vai sendo construída a cada novo fato revelado. Ao conhecermos sua casa e sua família, somos apresentados a natureza crua da sua criação e levados a entender a sua necessidade de preserva-se até mesmo de seu grande amor. Gradualmente, os episódios abrem seu universo de personagens, revelando figuras insensíveis e marcadas pela frieza e distanciamento, tendo seu ápice no aparecimento dos pais de Daniel, já no episódio final. 

Agindo como um co-protagonista, Scottie é o parceiro de Daniel durante toda trama, despertando grandes suspeitas somadas a simpatia. É um personagem denso, marcado pela atividade espiã e mais ainda por ser homossexual. Seus diálogos com o amigo trazem o transbordar de emoções e enaltecem a delicadeza da série. 

Embora o seu argumento central, London Spy está longe de ser uma série ágil, e isso não a torna uma série ruim, apenas uma que não agradará os que anseiam frames inquietantes e o explodir de informações. No embate entre suas propostas, o drama é o fator dominate, o que a leva muito mais a explorar a sensibilidade e o sentimento. De uma fotografia incrível, cenografia claustrofóbica e direção pautada no olhar do protagonista, a produção ainda consegue tocar em temas como aceitação da sexualidade, HIV, drogas e as relações no universo LGBT, porém seu maior mérito é fazer isso não sendo uma série exclusiva para esse público. 

[Review]London Spy, o encontro de dois mundos no drama de espionagem inglês


Isabel e Augusto em cena da minissérie Ligações Perigosas

Quem vê a facilidade que temos em mandar mensagens, hoje em dia, talvez nem imagine ou se lembre que, há pouco menos de duas décadas, as cartas ainda eram um meio de comunicação amplamente utilizado.  Instrumento dos apaixonados, escrever uma carta é ato cuidadoso, no qual cada palavra deve ser ponderada, e é essa característica que mais impressiona em Ligações Perigosas. O refinamento textual, resultado do trabalho de Manuela Dias e Duca Rachid, gera um ritmo elegante e pontuado às falas . Assistir cada capítulo é como ler uma carta aberta ao telespectador. 

Sendo as cartas o fio condutor, se faz necessário o locutor certo para fazer a interpretação e correta ressalva dos sentimentos transcritos. Neste ponto, Patrícia Pillar e Selton Mello assumem com maestria essa trabalho. Isabel e Augusto são, sem dúvidas, os personagens mais interessantes da produção. Inescrupulosos e de índole reprovável, suas motivações não se resumem a dinheiro, beleza ou amor, até por que isso eles já possuem. Eles são movidos por uma desejo único de manipular e se divertir as custas daqueles considerados mais fracos e dignos de piedade pelo casal. A própria interação entre eles, baseada em apostas e na atração, é como uma dança em volta do abismo que tende a provar qual deles é o mais forte. Um jogo destrutivo e nocivo para todos os envolvidos. Augusto, visto como a maior força masculina na trama, é como um sol orbitado por várias mulheres que ele dispõe ao seu bel prazer.

Em um década na qual as mulheres ainda começavam a ganhar espaço, Cecília e Mariana são a representação típica desta época. A primeira, uma menina submissa que não questiona a autoridade da mãe, enquanto a outra, uma mulher cuja religiosidade e o matrimônio são suas principais motivações. Atraídas pela teia formada por Isabel e Augusto, ao longo dos cinco primeiros episódios, vemos Cecília sendo lentamente corrompida, como se a menina desse espaço a uma mulher dissimulada e manipulativa, seguindo os passos da tia. Apoiada na sua paixão por Felipe, ela mente, engana e cede ao charme de Augusto, sem nem ao menos perceber o caminho que está trilhando. A cena de estupro que ela protagoniza serve para ressaltar a violência que as mulheres sofriam naquele tempo, sendo usadas como objetos dispostos por uma sociedade machista. 

Em uma direção contrária ao desvirtuamento, a relação de Augusto e Mariana tende a nos levar a crer que os sentimentos dele são reais, embora sua motivação inicial tenho sido o puro divertimento. Dado o seu estado de negação, é difícil deduzir se o amor que ele declara é realmente legítimo ou se faz parte  apenas do teatro levado a seduzir a beata. Se há algo que pode transformar um ser um humano, isto é sem dúvidas o amor. Esse movimento não planejado, óbvio, levará a uma desestruturação da relação dele com sua cúmplice. Ao colocar o afeto em prioridade, o combate entre os dois será inevitável. 

Regrado de boas atuações, Ligações Perigosas também conta com uma fotografia belíssima que envolve cada cena. Ter a década de 20 como pano de fundo traz todo um charme e grandiosidade a trama, algo ressaltado pela delicada trilha sonora, cuja composição possui músicas originais gravadas exclusivamente para a minissérie e é de responsabilidade do produtor musical Sacha. 



Sendo baseada em um clássico francês  de mesmo nome e do autor Choderlos de Laclos, a produção peca um pouco pela falta de brasilidade. Por um tempo, é difícil entender em que cenário geográfico se passa a trama, e qual é a natureza econômica dos personagens, o que faz com que essas interpretações sejam feita pelo público. Privilegiada pelo horário, a produção tão pouco faz uso desse benefício e por quatro capítulos, a ambientação levava a crer que assistíamos a uma novela das seis. 

[Crítica] Ligações Perigosas






Lançada há uma semana, Secreto é uma websérie independente e produzida pelos próprios atores. O enredo gira em torno da relação de Rodrigo e Davi, um casal que vê seu cotidiano alterado pelo retorno de Gisele, uma ex-namorada de Rodrigo. Ainda apaixonada, ela se mostra transtornada e com aparentes segredos que mudarão a vida de todos. Os episódios são curtos, quase como um quebra cabeças de um grande filme, um formato parecido ao de Dudu está Solteiro. 

Com roteiro, direção e edição do ator Patrick Orlando (Rodrigo), uma maravilhosa direção de fotografia de Felipe Coasth juntamente com seu assistente Jeferson Alencar, trilha sonora do cantor e compositor Betto Serrador, Secreto apresenta um trabalho técnico refinado e encantador.

Os episódios podem ser vistos na canal da série.



[Websérie] Secreto