Review O Canto da Sereia 1x01-1x04: Beleza e Morte na Bahia


                         

Em uma primeira impressão, O Canto da Sereia chama atenção pela divergência em relação ao padrão Globo de produção. Não existe um casal melancolicamente apaixonado separado por uma vilã maligna, e a trama se sustenta na investigação da morte de sua protagonista, a qual se mantém viva pelo uso de flashbacks, um recurso que embora bastante utilizado no padrão americano de séries não costuma aparecer em produções nacionais que geralmente priorizam enredos com fases distintas.

O nome da protagonista não poderia ser mais apropriado. Assim como as criaturas mitológicas, Sereia seduz todos a sua volta e os arrasta para sua vida conturbada por simples prazer, descartando-os com a mesma facilidade que os atraiu. Sereia não é ruim, mas também não é uma mocinha desprotegida. Ela é a típica garota em busca de novas experiências, que se entedia fácil com a rotina e com as pessoas, estando sempre à procura de um novo corpo, um novo amor, uma nova diversão.

                                     

A escolha de Ísis Valverde para interpretar a cantora também é extremamente adequada. Não é apenas a aparência que convence, mas Ísis consegue assumir todas as faces de sua personagem que oscila durante toda a trama, indo em poucos segundos de um tom irreverente e feliz para uma atitude reflexiva ou melancólica de quem está marcado para morrer.

Com a narrativa focada em uma personagem, os coadjuvantes não ganham tanta profundidade psicológica (pois giram em torno de Sereia) e em geral estão relacionados por uma devoção incondicional ou um sentimento de vingança por terem sido iludidos, abandonados ou traídos. O próprio investigador Augustão, pelos olhos de quem acompanhamos a história, tem seu maior arco emocional em uma cena de sexo casual com Mara. Apesar disso, os coadjuvantes não deixam de ser interessantes, pelo contrário. Destaque para Camila Morgado que dá um show de interpretação.


Em termos de aspectos técnicos, a produção é impecável. A Bahia é destacada não apenas por seu carnaval, mas suas ruas servem de cenário para grande parte das cenas. A direção consegue manipular o clima quente e a euforia, que divergem do gênero suspense, e encaixam isso de forma muito adequada trabalhando em um contraponto entre a imagem que temos do estado e o ritmo do enredo. A fotografia levemente embaçada, os figurinos de Sereia utilizando conchas e tecidos leves lembrando escamas, o posicionamento distante da câmera, a trilha sonora, se somam a interpretações alinhadas e geram como resultado um produto de excelente qualidade artística e visual.

O assassino era óbvio. Desde o primeiro capítulo, Só Love era o único a não apresentar um motivo eminente para matar Sereia. Isso por si só já seria razão suficiente para desconfiança, visto que esse gênero geralmente aponta nesta direção. Porém, a sua relação com Sereia é uma das mais intrigantes. Mesmo com sua homossexualidade óbvia, as cenas entre elas eram envolvidas por um carinho quase sexual, como se por diversos momentos eles fossem se beijar. Uma intimidade profunda e terna. Só Love amava Sereia não apenas como a um ídolo. Existia uma relação de completude entre eles, e foi ele a única pessoa que se percebe Sereia realmente amou. E o amor era correspondido a tal ponto, que ele aceitara o pedido de matá-la e o fizera em seu momento de glória, para que ela morresse em seu esplendor.                                

O texto ainda faz questão de justificar a habilidade do assassino em manipular a arma do crime, algo que por vezes é desconsiderado em certas novelas em que os personagens conseguem atirar com tamanha facilidade.

A morte também traz um aspecto reflexivo. Sereia tinha o orgulho como algo mais poderoso que sua vontade de viver. Ela preferiu morrer para não ser vista fraca, para não perder a beleza que sempre lhe proporcionara todas as aventuras de sua vida. A beleza era tudo o que ela tinha de maior valor. E morrer jovem é permanecer belo. 

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