[Crítica] Ligações Perigosas


Isabel e Augusto em cena da minissérie Ligações Perigosas

Quem vê a facilidade que temos em mandar mensagens, hoje em dia, talvez nem imagine ou se lembre que, há pouco menos de duas décadas, as cartas ainda eram um meio de comunicação amplamente utilizado.  Instrumento dos apaixonados, escrever uma carta é ato cuidadoso, no qual cada palavra deve ser ponderada, e é essa característica que mais impressiona em Ligações Perigosas. O refinamento textual, resultado do trabalho de Manuela Dias e Duca Rachid, gera um ritmo elegante e pontuado às falas . Assistir cada capítulo é como ler uma carta aberta ao telespectador. 

Sendo as cartas o fio condutor, se faz necessário o locutor certo para fazer a interpretação e correta ressalva dos sentimentos transcritos. Neste ponto, Patrícia Pillar e Selton Mello assumem com maestria essa trabalho. Isabel e Augusto são, sem dúvidas, os personagens mais interessantes da produção. Inescrupulosos e de índole reprovável, suas motivações não se resumem a dinheiro, beleza ou amor, até por que isso eles já possuem. Eles são movidos por uma desejo único de manipular e se divertir as custas daqueles considerados mais fracos e dignos de piedade pelo casal. A própria interação entre eles, baseada em apostas e na atração, é como uma dança em volta do abismo que tende a provar qual deles é o mais forte. Um jogo destrutivo e nocivo para todos os envolvidos. Augusto, visto como a maior força masculina na trama, é como um sol orbitado por várias mulheres que ele dispõe ao seu bel prazer.

Em um década na qual as mulheres ainda começavam a ganhar espaço, Cecília e Mariana são a representação típica desta época. A primeira, uma menina submissa que não questiona a autoridade da mãe, enquanto a outra, uma mulher cuja religiosidade e o matrimônio são suas principais motivações. Atraídas pela teia formada por Isabel e Augusto, ao longo dos cinco primeiros episódios, vemos Cecília sendo lentamente corrompida, como se a menina desse espaço a uma mulher dissimulada e manipulativa, seguindo os passos da tia. Apoiada na sua paixão por Felipe, ela mente, engana e cede ao charme de Augusto, sem nem ao menos perceber o caminho que está trilhando. A cena de estupro que ela protagoniza serve para ressaltar a violência que as mulheres sofriam naquele tempo, sendo usadas como objetos dispostos por uma sociedade machista. 

Em uma direção contrária ao desvirtuamento, a relação de Augusto e Mariana tende a nos levar a crer que os sentimentos dele são reais, embora sua motivação inicial tenho sido o puro divertimento. Dado o seu estado de negação, é difícil deduzir se o amor que ele declara é realmente legítimo ou se faz parte  apenas do teatro levado a seduzir a beata. Se há algo que pode transformar um ser um humano, isto é sem dúvidas o amor. Esse movimento não planejado, óbvio, levará a uma desestruturação da relação dele com sua cúmplice. Ao colocar o afeto em prioridade, o combate entre os dois será inevitável. 

Regrado de boas atuações, Ligações Perigosas também conta com uma fotografia belíssima que envolve cada cena. Ter a década de 20 como pano de fundo traz todo um charme e grandiosidade a trama, algo ressaltado pela delicada trilha sonora, cuja composição possui músicas originais gravadas exclusivamente para a minissérie e é de responsabilidade do produtor musical Sacha. 



Sendo baseada em um clássico francês  de mesmo nome e do autor Choderlos de Laclos, a produção peca um pouco pela falta de brasilidade. Por um tempo, é difícil entender em que cenário geográfico se passa a trama, e qual é a natureza econômica dos personagens, o que faz com que essas interpretações sejam feita pelo público. Privilegiada pelo horário, a produção tão pouco faz uso desse benefício e por quatro capítulos, a ambientação levava a crer que assistíamos a uma novela das seis. 

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